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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Passeio Socrático ( Frei Beto)

PASSEIO SOCRÁTICO - (texto do Frei Beto)

Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibet, da
Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos,
recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão. Outro dia eu observava
o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de
executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente
comendo mais do que deviam. Com certeza já haviam tomado café da manhã
em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam
vorazmente. Aquilo me fez refletir:
- Qual dos dois modelos produz felicidade?
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei:
- Não foi à aula? Ela respondeu:
- Não, tenho aula à tarde.
Comemorei:
- Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde.
- Não, retrucou ela, tenho tanta coisa de manhã...
- Que tanta coisa? Perguntei:
- Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina, e começou a elencar seu
programa de garota robotizada.
Fiquei pensando
- Que pena, a Daniela não disse: - Tenho aula de meditação!
Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmente equipados,
mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora
que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não
adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as
pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem
aulas de meditação!
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis
livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de
ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me
preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho
ótimo, vamos todos morrer esbeltos:
-Como estava o defunto?. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!
Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da
ociosidade amorosa?
Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na
realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade.
Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela Internet: não se pega
aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse.
Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima
em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio
ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os
valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de
abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais,
religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai
por outro lado, pois somos também eticamente virtuais...

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do
espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um
problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um
pouco menos cultos. A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é
o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador,
imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde
diante da tela.
Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que
felicidade é o resultado da soma de prazeres: - Se tomar este
refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro,
você chega lá! O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede
desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um
analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.
Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus
pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o
direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o
desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande
desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver
o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante,
neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor...
Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis:
amizades, auto-estima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à
Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar
saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem
história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma
catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso:
a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais
estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir
roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação
paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela
musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas
aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por
belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos
céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no
cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar,
certamente vai se sentir no inferno.... Felizmente, terminam todos na
eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o
mesmo hambúrguer do McDonald's...
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas:
-Estou apenas fazendo um passeio socrático. Diante de seus olhares
espantados, explico:
- Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça
percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o
assediavam, ele respondia:
- Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para
ser feliz.
Frei Beto