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sábado, 11 de junho de 2011

Corações Valentes


Se você acha que coragem é apenas impulso emocional e ausência de medo, vale a pena conhecer as últimas pesquisas da área da neurobiologia sobre esse tema. E um dos grandes estudiosos do assunto é justamente o neurocientista e psicólogo clínico brasileiro Julio Peres. Ao longo de sua produtiva carreira, Peres especializou-se na superação de traumas - isto é, no exercício de estimular a coragem em seus pacientes e de ensiná-los a superar seus medos. A novidade no assunto é que ele fez um mapeamento de como se dá essa superação por meio de tomografias computadorizadas que mostram os efeitos neurobiológicos da psicoterapia em pessoas traumatizadas. Ou seja, hoje é possível saber quais áreas do cérebro são ativadas quando uma pessoa tem a coragem de ultrapassar seus temores. E você vai cair de costas: a principal área estimulada é o córtex pré-frontal, a região ligada ao intelecto e ao planejamento de ações, e não a amígdala, uma estrutura cerebral correlacionada com o impulso emocional, a agressividade e o temor. Quem diria, a coragem é uma estratégia mental para superar o medo! Se a crença popular diz que a coragem é uma emoção nascida do coração, a ciência diz que ela é também resultado do raciocínio e capacidade de julgamento das variáveis disponíveis.
Por isso, Julio Peres prefere usar a expressão "ato corajoso" a usar "coragem"; o termo genérico. "O ato co¬rajoso é resultado de um julgamento consciente. E julgar significa avaliar e analisar os caminhos possíveis diante de uma determinada situação. Um ato corajoso envolve capacidade de análise, equilíbrio e responsabilidade." Quer dizer, se realmente vou ultrapassar um limite, eu o faço conscientemente, não apenas no impulso. Nessa concepção, a coragem tem muito mais peso e importância. "Esse tipo de coragem sem muita consciência pode até existir, por exemplo, num ato resultante de um reflexo instantâneo que salvou alguém de um atropelamento. Mas ela ainda é primitiva, não tem tanto valor exatamente porque não é muito consciente. É simplesmente uma presença de espírito, um expediente que deu certo, como podia não ter dado" diz.

Outro recurso é a exposição à situação, passo a passo. No caso de alguém que sofreu um acidente e tem medo de dirigir de novo, por exemplo, a situação pode ser reconstruída no consultório, com apoio psicológico. E, na vida real, a pessoa é estimulada a voltar a dirigir: primeiro como passageiro, ao lado de um motorista em quem tenha confiança, depois tomando a direção, mas ainda com a pessoa ao lado. E depois, num curto trecho, sozinha. Eliminam-se também as mesmas condições do dia do acidente, como um clima chuvoso, baixa luminosidade, estrada ruim, alta velocidade. Aos poucos, incorporam-se outras possibilidades ao cenário. Costuma funcionar. A pessoa pode estar ainda aflita e temerosa, mas a coragem de enfrentar a situação temível já é um passo para ultrapassar os traumas. A lição de ouro dessa história é: não existe coragem sem medo. Se não tiver medo, não é coragem.
Você já deve ter intuído que existem pessoas naturalmente mais co¬rajosas que outras. Não que elas não sejam covardes de vez em quando - afinal a coragem não é um monolito (há gente, por exemplo, capaz de surfar ondas gigantes de 15 metros de altura no Havaí e morrer de pavor na hora de tomar uma injeção). Mas digamos que, na maioria das vezes, elas tenham uma tendência maior de se atirar na vida, e de enfrentar desafios, que outras. Se você já percebeu isso, saiba que sua intuição pode estar completamente certa: tem gente com maior vocação para experimentar o novo, o desconhecido, para se aventurar e controlar com bastante sucesso sua insegurança. Para essa turma, a vontade de sentir o gosto das experiências é mais forte que o medo e a perspectiva sempre presente de um arrependimento posterior. "É melhor se arrepender do que se fez que do que não se fez" é o lema deles.
Na classificação dos quatro grandes grupos comportamentais humanos realizada pela antropóloga americana Helen Fischer no livro Why Him? Why Her? ("Por que ele? Por que ela?", sem edição brasileira), esse pessoal mais atirado é conhecido como "exploradores": Gente criativa, inteligente, confiante, generosa, otimista. São pessoas um pouco volúveis, é verdade, mas se a estabilidade - seja na profissão, seja nas relações amorosas - oferecer espaço suficiente para a surpresa, o movimento e a inventividade, são capazes de permanecerem fiéis e sossegados por um bom tempo, pela vida toda, até. Segundo Helen, os exploradores, portanto, são os mais propensos a tomar atitudes ousadas - para o bem e também para o mal. Não é raro um explorador, principalmente dos mais afoitos, se esbor¬rachar na vida - e com a mesma desenvoltura se recuperar à custa de seu eterno entusiasmo. A imensa maioria dos exploradores poderia assinar com orgulho o mesmo epitáfio que o poeta Pablo Neruda escolheu para si mesmo: "Confesso que vivi" Eles realmente amam a vida, se divertem com ela e a vivem intensamente, mesmo com suas feridas, raspões e cortes.
Bem, os construtores são o que Helen chama de "os pilares da sociedade". São pessoas responsáveis, dedicadas, fiéis a seus princípios e muito ligadas às metas que estabeleceram para suas vidas. São mais tradicionais e procuram pessoas igualmente conservadoras para se relacionar. Permanecem longo tempo nos empregos, ou nos casamentos, e olham com bastante desconfiança para o novo ou diferente. Gostam das coisas como estão e desejam que elas se mantenham assim, mesmo quando não estão lá essas coisas. Podem ser corajosas, principalmente quando lutam pelo que acreditam, porém são cautelosas e menos impulsivas. Se optam por um ato corajoso, é porque já refletiram bastante a respeito e porque ele está de acordo com o que pensam da vida naquele momento. Podem até se sentir meio inseguros, mas vão em frente.